Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte.
Que ninguém me peça nada. Nada.
Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,
Com a minha noite que nem sempre é noite
Como a alma quer.
Não sei caminhos de cor.
- Fernando Namora
Um dia de cada vez, comme il faut! A idade aconselha passos lentos para atrasar a vida, assim como uma longa distância de ambientes confusos. Há que assegurar alguma tranquilidade. A paz, recurso cada vez mais escasso, sobe constantemente o seu preço, atribuindo-se montantes quase impagáveis, inacessíveis à bolsa de um simples aposentado de afazeres que já ninguém valoriza. Afazeres que, até há pouco, lhe permitiram acumular algum aforro para alma e, ainda hoje, lhe garantem a sobrevivência. Até quando Deus quiser!...
A linha do horizonte já esteve mais distante. Tantas vezes o nevoeiro a encobriu que nem se apercebeu do seu rápido avanço. Agora, mais visível pela aproximação, as surpresas sucedem-se à medida que se lhe revela o futuro para o qual correu entusiasmado tantas e tantas vezes. Ao longe, como era atraente!... Como é assustador visto de perto!...
Cartas ao vento, o melhor refúgio para quem as cria e sabe que ninguém as lê. Necessidade estranha esta, a de escrever para si mesmo. Tom suave dos gritos da alma, discurso calmo de quem prefere desabafar consigo mesmo por desconfiar que não o entendam. Contenção, estado de necessidade em tempos com que não se identifica. Aceita a crítica: é da idade!...
“Anda devagar, porque já teve pressa”, continua a jornada apesar das pedras do caminho.
Como Fernando Namora, que cita respeitosamente, o signatário não sabe caminhos de cor, nem mesmo os que já percorreu… Na vida, “nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte”.
Se possível, “deixai-o como a alma quer” …
O Alemão
2025.10.14

Comentários
Enviar um comentário