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FANECA DA PEDRA III

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“Faço o possível para escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio. Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do desafio. Saem pobres palavras.” - Clarice Lispector   Analisa as palavras, uma a uma. Das mais complexas às mais simples, a todas sujeita a um crivo apertado que as avalia. As que escapam, poucas, serão sempre um resto que nunca usará a não ser por acaso. E, mesmo assim, como as demais, pobres palavras. Nunca expressarão com rigor o que sua alma esconde religiosamente, por insuficiência de alcance descritivo. Nem tudo se explica por palavras! Como a autora que o inspira neste texto, o Alemão confirma que os seus sentimentos são intraduzíveis.   “A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a signifique.” - Clarice Lispector Indigna-se perante a ousadia de quem j...
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“Acostumados a ouvir, não encontramos  espaço nem coragem para falar. O mundo   parece ser tão pesado para os outros que   decidimos carregar o peso do nosso sozinhos.” - in_finitys “Oh! Se a minha mágoa retamente se pesasse e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança! Porque, na verdade, mais pesada seria do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido inconsideradas” – Livro de Jó, 6. Apesar do habitual sorriso, boca há muito cerrada. Fonte de palavras quase ditas que encheriam o livro virtual que as aguarda, mas que ficará certamente por editar. Quem arriscaria a sua publicação? Páginas e mais páginas em branco, nuas de histórias que recusam com veemência qualquer registo, preferindo o silêncio pesado de cada dia. Na verdade, depois de tanto ouvir e perceber o mundo dos outros, quem se arriscaria a não ser ouvido sobre o seu? Falar por falar? Paredes sem ouvidos ? Palavras insignificantes, incapazes de acordar uma qu...
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Vento que passas, leva-me contigo. Sou poeira também, folha de outono. Rês tresmalhada que não quer abrigo No calor do redil de nenhum dono. Leva-me, e livre deixa-me cair No deserto de todas as lembranças, Onde eu possa dormir Como no limbo dormem as crianças. - Miguel Torga  Procura o equilíbrio diante dos fortes ventos que ultimamente têm soprado sem parar, vindos de diversos quadrantes. Desconhece as condições climáticas que os originaram, assim como as razões da direção escolhida. Os últimos ventos, fortes ventos, desarrumaram-lhe as lindas lembranças que meticulosamente conservava ordenadas em valiosas prateleiras de particular acesso, pondo perigosamente em causa muita da sua riqueza… Dúvidas e mais dúvidas a enfraquecerem as bases, num turbilhão de maldades pretendendo a queda pela vacilação. Exige-se urgente reordenação do que não esteja perdido, mas com mudança de critério no seu regresso ao lugar de onde foram levadas : as lembranças mais antigas, na frente; a...
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  “Pois dentro desta manhã Vou caminhando. E me vou Tão feliz como a criança Que me leva pela mão. Não tenho nem faço rumo: Vou no rumo da manhã, Levado pelo menino (ele conhece caminhos e mundos, melhor do que eu).” - Thiago de Mello  Mais uma carta ao vento, papel esvoaçante, sem destino. Desabafo enigmático que, como outros, não chegará a ninguém . O envelope , intencionalmente simples, não atrairá leitores. Assim se deseja!... “Não tenho nem faço rumo: vou no rumo da manhã, levado pelo menino (ele conhece caminhos e mundos, melhor do que eu)”. Sempre levado pela mão de quem o amou, percorreu confiadamente os caminhos que lhe foram propostos e lhe definiram a vida até aqui. Acumulou inesquecíveis experiências, algumas irrepetíveis, criadoras de sentimentos que resultaram numa dedicação irreclamável, mesmo quando o cansaço começou a sugerir alguma desaceleração. O que construiu está diante dos olhos de todos os que veem. Nem muito nem pouco, o possível!... Mas semp...
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  “No cálice do meu refúgio, resta-me beber o vazio de   meu ser para humedecer a poeira de minhas palavras   mudas. Não estou triste, não estou cansada, não estou   NADA.”  – Rosa Berg  “Sempre consegui esconder os meus sentimentos através do sorriso, sabe? Era só sorrir e pronto, estava tudo bem. Por dentro a dor me consumia, mas ninguém precisava saber, então eu sorria” - Larissa Cotona. Distância segura, constante, face a frequentes tentativas de aproximação perturbadora. Quantas vezes “- tudo bem, está tudo bem!” e um calmo sorriso a confirmar a confissão, desencorajaram a curiosidade ousada, perversa até, de quem pretendia, sabe se lá com que intuito, a descoberta de padecimentos silenciados e guardados em espaços sagrados da vida dos outros, de alguns dos outros criteriosamente selecionados. Sofrimentos ocultos, longe do olhar maldoso de quem não seria nunca capaz de os entender verdadeiramente. Tristezas e cansaços negados...
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“Um girassol no fim da tarde, uma menina que corre com o cabelo ao vento, o sol que se despede no horizonte, cheiro de eucalipto no ar… Tudo é poesia no ocaso.” - Rosicarmen Xavier  Mais uma carta ao vento, sem endereço, levada ao acaso, ziguezagueando face às incertezas da intensidade dos impulsos, nem sempre constantes, dificultando qualquer tentativa de recolha. Voa livre sobre um mundo pobre, quase esgotado do bem!... Onde e a quem chegará? Pergunta-se apenas por curiosidade, pois ninguém a lerá, certamente. Palavras soltas, enigmas de difícil interpretação, desabafos sobretudo. E a noite a chegar!... A doce melancolia do entardecer. As cores serenas da vida, embora desbotadas pelo tempo, entregando-se totalmente submissas à escuridão que se aproxima e que avidamente as absorverá. O girassol já recolhido pela ausência do sol que se escondeu, a menina que corre aproveitando o último sopro do vento que lhe alisa carinhosamente os cabelos soltos, o cheiro de eucalipto no ...
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“O VENTO voa, a noite toda se atordoa, a folha cai. Haverá mesmo algum pensamento sobre essa noite? sobre esse vento? s obre essa folha que se vai?” - Cecília Meireles Árvore despida, ramos escanzelados, imagem triste e sombria de quem resiste de pé, teimosamente, no limite da sobrevivência. Pudica nudez, faz-lhe falta o manto que por algum tempo a cobriu. Pobreza de um final de ciclo. As flores murcharam, para sempre. Foi-se a beleza das cores e a doçura dos aromas. As folhas, uma a uma, até à última, despediram-se para sempre, também. Pisadas por caminhantes indiferentes, arrastadas ou levadas pelo vento para longe, abandonaram os ramos a que deram tanta vida. Mas, vencido o inverno , oxalá não demore a chegar a primavera !... Novas folhas e novas flores vicejarão nas árvores que pacientemente aguardam a brilhante alegria de um novo tempo, a renovação anunciada. “Porque há esperança para a árvore que, se for cortada, ainda se renovará, e não cessarão os seus renovos” - Jo...