“Faço o possível para
escrever por acaso. Eu quero que a frase aconteça. Não sei expressar-me por
palavras. O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio.
Expressar-me por meio de palavras é um desafio. Mas não correspondo à altura do
desafio. Saem pobres palavras.”
- Clarice Lispector
Analisa as palavras, uma a uma. Das mais
complexas às mais simples, a todas sujeita a um crivo apertado que as avalia. As
que escapam, poucas, serão sempre um resto que nunca usará a não ser por acaso.
E, mesmo assim, como as demais, pobres palavras. Nunca expressarão com rigor o
que sua alma esconde religiosamente, por insuficiência de alcance descritivo. Nem
tudo se explica por palavras! Como a autora que o inspira neste texto, o Alemão
confirma que os seus sentimentos são intraduzíveis.
“A minha vida a mais
verdadeira é irreconhecível, extremamente interior, e não há uma palavra que a
signifique.”
- Clarice Lispector
Indigna-se perante a ousadia de quem julga interpretar
claramente os silêncios que prefere às palavras que não arrisca. Lamenta,
ainda, que misturem o que julgam ser os seus indivulgáveis pensamentos com a
amálgama de conclusões depravadas que alcançam da limitada e distorcida observação
que fazem destes tempos na sua vida pessoal. A incontinência das gentes que
pervertem o segredo não revelado em inenarráveis vulgaridades.
“Só a necessidade que eu
tenho me justifica.
Que seria de mim se eu não
precisasse?
Que seria do meu corpo se
não houvesse
o aviso da fome? Que seria
de mim se não
houvesse o futuro? Que seria
de mim se eu
não precisasse de Deus?”
- Clarice Lispector
“Só
a necessidade que eu tenho me justifica”. Longo desdobrável de restrito
acesso, diversas necessidades aglutinadas em uma só. “Que seria de mim se eu
não precisasse de Deus?”.
A
final,
“Desculpem
eu ser eu. Quero ficar só! Grita a alma do tímido que só se liberta na solidão.
Contraditoriamente quer o quente aconchego das pessoas”
– Clarice
Lispector
O
Alemão
2025.11.07

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