“Acostumados a ouvir, não encontramos
espaço nem coragem para falar. O mundo
parece ser tão pesado para os outros que
decidimos carregar o peso do nosso sozinhos.”
- in_finitys
“Oh! Se a minha mágoa retamente se pesasse e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança! Porque, na verdade, mais pesada seria do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido inconsideradas” – Livro de Jó, 6. Apesar do habitual sorriso, boca há muito cerrada. Fonte de palavras quase ditas que encheriam o livro virtual que as aguarda, mas que ficará certamente por editar. Quem arriscaria a sua publicação? Páginas e mais páginas em branco, nuas de histórias que recusam com veemência qualquer registo, preferindo o silêncio pesado de cada dia. Na verdade, depois de tanto ouvir e perceber o mundo dos outros, quem se arriscaria a não ser ouvido sobre o seu? Falar por falar? Paredes sem ouvidos? Palavras insignificantes, incapazes de acordar uma qualquer plateia adormecida. Palavras inconsideradas, desprezados desabafos… Peso ou leveza que ninguém avalia: peso do mundo a carregar sozinhos!...
“Minha alma tem o peso da luz.
Tem o peso da música.
Tem o peso da palavra nunca dita,
Prestes quem sabe a ser dita.
Tem o peso de uma lembrança.
Tem o peso de uma saudade.
Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência.
E a lágrima que não se chorou.
Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.”
- Clarice Lispector
Mágoas e misérias, onde mora a balança de altíssima sensibilidade capaz de as pesar? Onde e como encontrar, num mundo tão desinteressante e injusto como o de hoje, o valioso instrumento avaliador do peso dos mais diversos sentimentos dinamizadores da vida? Como determinar o peso da luz, da música, da palavra, de uma lembrança, de uma saudade, de um olhar, de uma ausência, da lágrima que não se chorou, da solidão? Ausência de respostas a tantas e tantas pungentes e emergentes perguntas. Intrigante indiferença, mesmo castigadora, que despreza sobretudo o esforço de quem procura descobrir caminhos sustentáveis de paz e de justiça.
A busca do muito pouco que ainda resta no que toca a valores e princípios outrora fartos preocupa seriamente quem observa o quotidiano dos povos. Ninguém pesa, ninguém avalia, não há balança que ajude ao equilíbrio… O peso do que os outros carregam não é importante!...
“- O que pesa mais: o amor ou a morte?
- A vida pesa mais. A vida.”
- La Casa de Papel
O Alemão
2025.10.18

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