Vento que passas, leva-me contigo.

Sou poeira também, folha de outono.

Rês tresmalhada que não quer abrigo

No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair

No deserto de todas as lembranças,

Onde eu possa dormir

Como no limbo dormem as crianças.

- Miguel Torga 



Procura o equilíbrio diante dos fortes ventos que ultimamente têm soprado sem parar, vindos de diversos quadrantes. Desconhece as condições climáticas que os originaram, assim como as razões da direção escolhida. Os últimos ventos, fortes ventos, desarrumaram-lhe as lindas lembranças que meticulosamente conservava ordenadas em valiosas prateleiras de particular acesso, pondo perigosamente em causa muita da sua riqueza…


Dúvidas e mais dúvidas a enfraquecerem as bases, num turbilhão de maldades pretendendo a queda pela vacilação. Exige-se urgente reordenação do que não esteja perdido, mas com mudança de critério no seu regresso ao lugar de onde foram levadas: as lembranças mais antigas, na frente; as mais recentes, atrás. O passado mais à mão de semear, a exaltação dos alicerces de um homem e de duas vidas… Valorização cronológica que nem todos aceitam, por negarem no presente a existência viva do passado. Paciência, cada um sabe de si, cada um sente como sente!...


Vai escrevendo cartas que ninguém lê. Escreve-as para si, é verdade, como tantas vezes revelou. Quase sempre sossegam o seu espírito frequentemente inquieto e que se basta com a atenção que lhe é dispensada por algumas palavras… que não passam disso mesmo: palavras que, embora sentidas, também são levadas pelo vento. A inação, essa, está condicionada pela postura solitária que escolheu e pelo ânimo que já não tem. E, depois, ninguém lê cartas ao vento!…


Há quem tenha consciência do entorpecimento coletivo que ausenta a muitos do melhor que a vida ativa pode proporcionar: a paz. Um sono pesado castiga o mundo profundamente adormecido, que teima em não despertar para valores que hoje considera desajustados e, sobretudo, ultrapassados. Terra estranha!...


“Junto aos rios de Babilónia nos assentámos e chorámos, lembrando-nos de Sião” – Bíblia Sagrada, Salmo 137,1. 



O Alemão

 2025.10.18



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