“Um girassol no fim da tarde,

uma menina que corre com o cabelo ao vento,

o sol que se despede no horizonte,

cheiro de eucalipto no ar…

Tudo é poesia no ocaso.”

- Rosicarmen Xavier 



Mais uma carta ao vento, sem endereço, levada ao acaso, ziguezagueando face às incertezas da intensidade dos impulsos, nem sempre constantes, dificultando qualquer tentativa de recolha. Voa livre sobre um mundo pobre, quase esgotado do bem!... Onde e a quem chegará? Pergunta-se apenas por curiosidade, pois ninguém a lerá, certamente. Palavras soltas, enigmas de difícil interpretação, desabafos sobretudo. E a noite a chegar!...



A doce melancolia do entardecer. As cores serenas da vida, embora desbotadas pelo tempo, entregando-se totalmente submissas à escuridão que se aproxima e que avidamente as absorverá. O girassol já recolhido pela ausência do sol que se escondeu, a menina que corre aproveitando o último sopro do vento que lhe alisa carinhosamente os cabelos soltos, o cheiro de eucalipto no ar a suscitar respiração profunda, purificadora…. Momento mágico, único. É a hora dos poetas, o sublime momento da recreação de emoções dormidas entretanto acordadas, o despertar de saudades, alegrias, tristezas, dores, lágrimas…. enfim, o ocaso em todo o seu esplendor!



Mas, “quando achamos que depois do pôr do sol tudo vai ficar escuro, chega Deus com as estrelas e nos presenteia com a Sua Luz” – Edna Frigato. “O pôr do sol ensina-nos que o fim de algo não significa o fim de tudo” – Ralph Waldo Émerson. À bon entendeur!...



Mário Quintana, sempre presente por aqui, disse um dia que “o que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono. O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente. E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver”. O fim de algo ou o fim de tudo está, muitas vezes, na mão do próprio homem. Altaneiro, arrogante, prepotente, individualista, caminha seguro sobre um chão doído que não valoriza e que pisa sem respeito pelo esforço de quem o construiu. Caminho que termina logo ali, quando a noite chegar… 



“No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas

Que o vento não conseguiu levar:

Um estribilho antigo

Um carinho no momento preciso

O folhear de um livro de poemas

O cheiro que tinha um dia o próprio vento”

- Mário Quintana 



O Alemão 


2025.10.17 




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