“Murmúrios
  
Não há musas aqui.
 
Há sombras tutelares

Às quais vivo obrigado e devotado,

 
E elas também me inspiram.

 
Mas tão contidas que meu canto 


É sempre como um salmo sussurrado 


Num altar.


Tão breve e embargado


Para não perturbar


O silêncio do passado no presente.”


- Miguel Torga, Diário XIV 



No dizer de Cecília Meireles, os dias são feitos de “pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”. Como o de hoje! Em registo moderado, solene até, numa postura defensiva, invisível aos olhares descobridores até do que não veem, desfrutam-se serenamente as horas, os minutos, os segundos. O tempo que resta! Devagar, em silêncio, a terna compatibilização do passado com o presente, numa prazerosa simbiose que a insensibilidade de muitos desaproveita. Estranho alheamento, esse, dispensável desconsideração, arquivamento definitivo de vida friamente assumido por quem coloca o passado numa espécie de empoeirado e desinteressante museu a nunca visitar, por prejudicial, dizem, à dinâmica da era atual. Agora, os tempos são outros, proclamam! Aponta-se a um novo paradigma que rompe definitivamente com o que já se foi, sem exceções. Perda de tempo para a arqueologia dos povos. Ancestralidade adormecida. Clausura da memória, por um lado; liberdade da aventura, por outro. Quem viver verá a realidade prometida para amanhã!... 


 “Nada!

Horas e horas neste ponto morto

Onde caiu agora a minha vida…

Nem um desejo, ao menos!

Só instintos pequenos:

Apetite de cama e de comida!

Nem sequer ler um livro

Ou conversar comigo, discutir…

Nada!

Neutro, morno, a dormir

Com a carne acordada.”

-Miguel Torga 


Por ora, “Nada! Neutro, morno, a dormir com a carne acordada”. Preencher o vazio, tarefa quase impossível mesmo para a melhor das vontades. Escasseia a matéria-prima num mundo tão empobrecido de humanidade, embora, enganosamente, se prenunciem benesses distribuíveis a qualquer momento, como subtis passes milagrosos aprendidos em valiosos manuais somente agora descobertos. Magia prometedora, caldo de sonhos e mais sonhos em sonos de carnes acordadas. Arautos de tudo e de nada, quem os ouve?... 


Cartas ao vento, não as leiam. São gritos aos quatro cantos… 


“Poesia!

Poesia!

Grite aos quatro cantos…

Quem sabe os ventos levem doçura

A este momento do mundo

A esta humanidade

Desumana!”

- William Marques de Oliveira 


 

O Alemão 


2025.10.16







Comentários

Mensagens populares deste blogue