Às quais vivo obrigado e devotado,
No dizer de Cecília Meireles, os dias são feitos de “pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças”. Como o de hoje! Em registo moderado, solene até, numa postura defensiva, invisível aos olhares descobridores até do que não veem, desfrutam-se serenamente as horas, os minutos, os segundos. O tempo que resta! Devagar, em silêncio, a terna compatibilização do passado com o presente, numa prazerosa simbiose que a insensibilidade de muitos desaproveita. Estranho alheamento, esse, dispensável desconsideração, arquivamento definitivo de vida friamente assumido por quem coloca o passado numa espécie de empoeirado e desinteressante museu a nunca visitar, por prejudicial, dizem, à dinâmica da era atual. Agora, os tempos são outros, proclamam! Aponta-se a um novo paradigma que rompe definitivamente com o que já se foi, sem exceções. Perda de tempo para a arqueologia dos povos. Ancestralidade adormecida. Clausura da memória, por um lado; liberdade da aventura, por outro. Quem viver verá a realidade prometida para amanhã!...
“Nada!
Horas e horas neste ponto morto
Onde caiu agora a minha vida…
Nem um desejo, ao menos!
Só instintos pequenos:
Apetite de cama e de comida!
Nem sequer ler um livro
Ou conversar comigo, discutir…
Nada!
Neutro, morno, a dormir
Com a carne acordada.”
-Miguel Torga
Por ora, “Nada! Neutro, morno, a dormir com a carne acordada”. Preencher o vazio, tarefa quase impossível mesmo para a melhor das vontades. Escasseia a matéria-prima num mundo tão empobrecido de humanidade, embora, enganosamente, se prenunciem benesses distribuíveis a qualquer momento, como subtis passes milagrosos aprendidos em valiosos manuais somente agora descobertos. Magia prometedora, caldo de sonhos e mais sonhos em sonos de carnes acordadas. Arautos de tudo e de nada, quem os ouve?...
Cartas ao vento, não as leiam. São gritos aos quatro cantos…
“Poesia!
Poesia!
Grite aos quatro cantos…
Quem sabe os ventos levem doçura
A este momento do mundo
A esta humanidade
Desumana!”
- William Marques de Oliveira
O Alemão
2025.10.16

Comentários
Enviar um comentário